A MAN WAS LYNCHED YESTERDAY (1920, 2016)

“Corpos negros dependurados nas árvores sulistas (…) Frutas estranhas”, cantava Billie Holiday. O linchamento era uma prática comum no Sul dos EUA. Entre os anos de 1830 a 1850 acontecia com homens brancos; mas pós Guerra de Secessão se tornou amplamente comum ter como vítima os homens negros (e também mulheres). Era uma maneira de “afirmar” uma pretensa supremacia branca, criando terrorismo racial com uma forma de “punição” que era extra-judicial: quase sempre os linchados eram falsamente acusados de crimes como estupro e assassinato. Em 1916, após o linchamento do jovem Jesse Washington, a NAACP (Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor) arrecadou dinheiro, e desenvolveu uma bandeira. As palavras em letra branca sobre fundo preto A MAN WAS LYNCHED YESTERDAY — Um homem foi linchado ontem — tremulavam na fachada da sede da Associação, na Quinta Avenida de Nova York, entre 1920 e 1938. A escolha da tipografia em caixa alta, condensada, verticalizada e em negrito tinha o intuito de tornar seu conteúdo legível pelos transeuntes. É curioso notar a semelhança no desenho dos caracteres de A MAN WAS LYNCHED com os de I AM A MAN (1968), o que pode indicar que haja inspiração e referência deliberada entre os dois momentos de luta por direitos civis. A bandeira era hasteada no dia seguinte das notícias de linchamento: foram 73 vezes em 18 anos, apenas no estado da Geórgia. Foi retirada após insistência dos donos do edifício, que ameaçaram a Associação de despejo. Em 2016 o artista Dread Scott referenciou a bandeira em seu trabalho “A MAN WAS LYNCHED BY THE POLICE YESTERDAY” — Um homem foi linchado pela polícia ontem — criada após o assassinato de Walter Scott por um policial em um parque. Participou de diversas exposições, e também foi censurada em inúmeras instâncias. Scott chegou até a ser ameaçado de linchamento. Para além da atemporalidade sucinta do design — que se repete 30, 90 anos depois, e parece sempre atual — me assombra a triste perenidade do enunciado. Linchado em 1916, linchado outras 73 vezes, alvejado ou sufocado por um policial, vítima de uma bala perdida, mais uma vez, ontem, o fruto estranho pende da árvore.

“Black bodies hanging from southern trees (…) Strange fruits,” sang Billie Holiday. Lynching was a common practice in the southern United States. Between 1830 and 1850 it happened to white men; but after the Civil War it became widely common to have black men (and also women) as a victim. It was a way of “asserting” an alleged white supremacy, creating racial terrorism with a form of “punishment” that was extra-judicial: lynched people were almost always falsely accused of crimes such as rape and murder. In 1916, after the lynching of young Jesse Washington, the NAACP (National Association for the Advancement of People of Color) raised money, and developed a flag. The words in white letters on a black background A MAN WAS LYNCHED YESTERDAY – flickered on the facade of the Association’s headquarters, on Fifth Avenue in New York, between 1920 and 1938. The choice of typography in upper case, condensed, vertical and bold, was intended to make its content readable by passers-by. It is interesting to note the similarity in the character design of A MAN WAS LYNCHED with that of I AM A MAN (1968), which may indicate that there is inspiration and deliberate reference between the two moments of struggle for civil rights. The flag was raised the day after lynching news: 73 times in 18 years, in the state of Georgia alone. It was withdrawn at the insistence of the building owners, who threatened the eviction association. In 2016 artist Dread Scott referred to the flag in his work “A MAN WAS LYNCHED BY THE POLICE YESTERDAY” – A man was lynched by the police yesterday – created after the murder of Walter Scott by a policeman in a park. She participated in several exhibitions, and was also censored in numerous instances. Scott was even threatened with lynching. In addition to the succinct timelessness of design – which is repeated 30, 90 years later, and always seems current – I am amazed at the sad perpetuity of the statement. Lynched in 1916, lynched 73 times more, shot or smothered by a policeman, victim of a stray bullet, again, yesterday, the strange fruit hangs from the tree.


da série design em contexto
publicado originalmente em 4.6.2020

from the series design in context (portuguese only)
originally published in 6.4.2020