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Designing is not a profession, but an attitude
— László Moholy-Nagy

Algumas semanas atrás eu fui convidado pelo Centro Acadêmico de Design da FURB, Universidade Regional de Blumenau, para um Q&A como parte de uma série de “lives” — as transmissões ao vivo, que se tornaram uma das principais maneiras de interação e distribuição de conteúdo durante a pandemia global da covid-19. Algumas horas antes do evento se iniciar eu estava relendo a pauta que me havia sido enviada, para me preparar e ter os assuntos-chave na ponta da língua. Uma das perguntas fazia relação a “projetos pessoais”, no que eu imaginei uma referência a um tipo de trabalho que desenvolvo em minha carreira desde a época de faculdade: publicações como o Zine Parasita e Gaveta; a editora CONTRA; o projeto educacional d’A Escola Livre, entre outros exemplos.

A pergunta era sobre a “importância” destes trabalhos para a carreira do profissional de design gráfico. E relendo-a, minutos antes da entrevista, fui subitamente acometido por uma daquelas… descargas elétricas que percorrem nosso corpo, quando algo que talvez estivesse se elaborando nas profundezas emerge para a superfície, e de repente conseguimos dar a volta numa ideia, e entender algo novo — sobre nós, sobre o mundo — de outra maneira.

Já a algum tempo a noção de “trabalho pessoal” me trazia incômodos, por muitos motivos. O primeiro que me vem à mente é relacionado a comentários que ouvi ao longo de minha carreira, quase sempre da boca de colegas de profissão, em que alegam que “não fazem” ou “não acreditam” em trabalho pessoal dentro de suas práticas. Que trabalham apenas para clientes terceiros. O segundo motivo é um que tangencia esse primeiro, pois sinto que é também incômodo de muitos desses outros profissionais: a noção de que existe um tipo de trabalho “melhor”, no qual o designer tem carta branca para fazer o que quer, sem precisar responder a ninguém, apenas a seus próprios desejos e impulsos criativos. Eu rejeito essa ideia por achá-la perigosa. Ela pressupõe uma relação antagônica com o tipo de trabalho habitual na carreira do designer, o que é feito para um cliente. A tentativa aí seria de dizer que o projeto “pessoal” se dá num contexto em que o designer gráfico é o único responsável pelas escolhas estéticas. Sinto que essa ideia corre o risco de propagar um equívoco muito grande, a respeito do que está em jogo na profissão e na prática do design: o de que nosso trabalho seria deter a palavra final das escolhas de formas, cores, tipografias e suportes. Supostos detentores de um “vastíssimo” conhecimento, e de um “genial” impulso criativo, que não pode, sob hipótese alguma ser questionado, perturbado. Afinal… nós sabemos o que é melhor, não é mesmo?

Creio que rechaço essas noções pelo mesmo motivo que rechaço o termo “independente”, quando usado para se qualificar o mercado editorial que abarca um universo que vai de editoras como ubu e n-1, até eventos como a New York Art Book Fair, espaços como a Banca Tatuí, e do qual a CONTRA uma época fez parte. Neste universo o termo é empregado para falar sobre um aspecto de financiamento e subsistência, e carrega consigo uma noção para mim meio equivocada: nada existe nesta plena independência de ação. Publica-se para que alguém leia (senão você imprimia, se imprimisse, e deixava guardado na sua gaveta de casa), usa-se um computador, um papel ou uma impressora que com certeza foi criado por uma grande corporação etc. Nenhum editor é uma ilha, nenhum zine é um coqueiro solitário. E o que vejo de semelhante nas ideias do “independente” e do “autoral” (como entendidos no senso comum) é essa noção de que o contato com o outro é negativo, ameaçador. De que se está sozinho para produzir, que não se deve ter preocupação com o contexto. Ora, uma das ideias-chave, tanto de publicar quanto de projetar, é comunicar. Carrego comigo uma crença profunda de que design É diálogo. O processo de desenvolvimento de um projeto é uma grande conversa com diferentes interlocutores, e seu produto final é resultado dessas trocas semânticas. A noção convencional pela qual um “projeto pessoal” seria superior ao trabalho para clientes então me parece um contra-senso: uma recusa à conversa, a destruição de uma ponte, um entrave comunicativo. Um monólogo num palco construído para o diálogo.

E foi justamente este incômodo que me veio por meio daquela descarga elétrica. Porém ele não veio sozinho: trouxe consigo também uma pequena subversão de entendimento. Um deslocamento muito simples, mas com complexas ramificações.

Me lembrei de uma representação visual que eu costumava utilizar em palestras (presenciais) durante uma época de minha carreira. Entre os anos de 2014–16 eu desempenhava muitos papéis na minha prática profissional: diretor de arte na consultoria de comunicação corporativa Report Comunicação; designer “freelancer” colaborando com instituições culturais, artistas; Dj, produtor e designer na festa Tenda; produtor, curador, designer (e às vezes até caixa e barista) no café/bar e espaço multiuso Elevado; editor, designer, vendedor e impressor na CONTRA; co-fundador, professor e entrevistador n’A Escola Livre. Eu começava as palestras me apresentando pelo nome e ilustrando todas essas atividades por meio de um diagrama de Venn, apontando para o meio dele, onde todas as áreas circulares se encontravam, e dizendo “eu sou isso aqui ó”.

Retornar a essa figura, naquele instante, 6 a 4 anos depois, me permitiu este novo entendimento a respeito não apenas de minha prática, mas de como entendo todo o design gráfico como campo de ação. E este novo lugar me permitiu abolir essas noções valorativas de “trabalho pessoal”, “trabalho autoral”, “trabalho para cliente” etc — existe apenas trabalho. Existe apenas a prática.

Agora uns passos pro lado se fazem necessários. Ou uma parada (outra) para respirar. É claro que enquanto “categorias” esses tipos de trabalho existem. Enquanto fatos: há trabalhos que são feitos para clientes, outros partem da iniciativa do próprio designer, de um convite, de uma colaboração. Há os que pagam muito e garantem o sustento; os que pagam pouco e consomem muito tempo; os que consomem muito tempo e dão prejuízo, ou acarretam em gastos. Mas precisam ser entendidos “apenas” como isso: são unidades de tempo, escalas de remuneração, e nem sempre obedecem a uma lógica coerente. Mas criar esta relação de valores “simbólicos” entre eles, em que a frustração nas limitações de um se compensa pela “liberdade criativa” do outro é um caminho muito perigoso. Como se um fosse o que você fizesse, mas o outro de fato o que queria estar fazendo, quando na verdade você está fazendo os dois — ou mais. Dar tamanho e peso para a frustração e a liberdade, é também limitar-se na sua possibilidade de ação, e na compreensão dos limites de sua própria prática e atuação.

A volta que eu fiz neste momento propõe o entendimento de uma outra ordem: “você é isso aqui”. O designer é isso aqui. É o CENTRO do diagrama de Venn. Você não se define ou qualifica por uma daquelas atuações, mas sim por todas. Sua prática é o conjunto delas todas, e o que elas significam não é nada mais, nada menos do que diferentes ocupações de tempo e valores de transação (às vezes nem financeiros). O valor do trabalho se desloca de volta para o profissional de design. A força de trabalho é SUA, e você a emprega em diferentes tarefas. E a resposta à “o que você faz” se torna mais complexa, porém mais completa também. “Eu sou isso aqui”, o resultado da intersecção desses diferentes círculos, essas diferentes conversas, essas escolhas, com suas limitações e liberdades, todos esses diálogos.

Voltando ao paralelo que estabeleci ali em cima, é também análogo a maneira que eu entendo a produção editorial que qualificam como “independente”. Quando eme refiro à ela prefiro usar o prefixo “auto”, como em automóvel. Porque eu quero qualificar ali não um setor de mercado, mas sim os atores e suas atitudes. Compreender que existe um impulso de editar, e que a satisfação e realização deste impulso é o combustível que segue alimentando essa fagulha inicial. É o corpo que abastecido coloca a si mesmo em movimento. De novo, um deslocamento do referencial de um ambiente externo em que atua, mas para a atuação em si.

Há uma frase que gosto muito, creditada ao poeta, romancista, tradutor, ativista socialista e (finalmente) designer têxtil inglês William Morris, tomada de empréstimo pela editora suíça Rollo Press. Ele afirma que “ser dono dos meios de produção é a única maneira de recuperar o prazer no trabalho, e isso, em retorno, é considerado como um pré-requisito para a produção de arte (aplicada) e beleza.” Morris é associado ao movimento Arts and Crafts, da passagem do século 19 para o 20, e que é entendido como uma das gêneses do design, na busca do desenvolvimento de produtos em processo e escala industrial, mas desenhados com apuro estético e visual. E também era influenciado por idéias Marxistas, o que é evidente pela frase em questão. O que ela revela, em conjunto com as ideias que estou desenvolvendo até aqui, é que esse “desvio de entendimento” que eu proponho sempre esteve presente no campo do design. Ele se manifesta mais tarde em diversas outras figuras e atitudes, como na abordagem construtivista de Moholy-Nagy, em sua união de arte com engenharia, tanto no mobiliário, quanto na fotografia e tipografia. Na profecia de Muriel Cooper de que um dia o designer, por meio do computador, construiria as ferramentas para seu próprio trabalho. Nas investigações de Aloísio Magalhães, datando desde o Gráfico Amador até seus Cartemas. Se intensifica na revolução tecnológica do desktop publishing, que se amplia na digitalização dos processos e produtos do design; e na mudança do profissional “especialista” para o “generalista”, em que não se define mais apenas por seu papel operacional, isolado em si numa linha de produção, mas sim na contribuição para um circuito, dentro de uma ou mais esferas de atuação.

É por meio do entendimento desta relação entre o meio produtivo e a possibilidade de criação que se dá essa “emancipação” do designer, e o deslocamento de sua força produtiva de volta para suas próprias mãos. Ela não pertence ao cliente, ao chefe, à organização, e sim ao profissional. Ela é comunicação, potência e intermediação, tradução. Ela é a contribuição do designer para o grande diálogo social.

Ainda não cheguei a compreender plenamente o que esse impulso elétrico significou. Mas sinto que este é um assunto que merece mais investigação. Ou, nas palavras de Cooper: “isto representa um esboço pra o futuro”.

Por By
Guilherme Falcão