I AM A MAN (1968)

Historicamente o termo “boy” — garoto — era usado para se referir à homens negros em países como Estados Unidos e a África do Sul. Usado como insulto, tinha o intuito de diminuir suas existências e lhe tirar a humanidade: um garoto é menos do que um homem. No final dos 1700 o termo foi reapropriado por movimentos abolicionistas norte-americanos, tornado pergunta: “Am I Not a Man and a Brother?” (Eu não sou um homem e um irmão?). Ressurgiu no ano de 1968, em meio aos protestos por direitos civis na cidade de Memphis. Após a morte de dois trabalhadores negros do departamento de saneamento — Echol Cole e Robert Walker — mais de 1.300 funcionários entraram em greve, exigindo condições de trabalho, aumento de salário, e o reconhecimento de sua humanidade. Em seus protestos eles marchavam transformados em multidões de homens-placa, trajando um cartaz desenvolvido pelos trabalhadores em parceria com o movimento de direitos civis. Mas ao invés da pergunta, se vestiam de uma afirmação: I AM A MAN! — Eu SOU um homem — grafada em caixa alta, numa tipografia condensada e alongada, que parecia alternar dois pesos diferentes. Quebrada em duas linhas, a frase ganha uma visualidade e eficácia impressionante. O efeito ainda se beneficia da qualidade poética da composição, em que a repetição das formas encontradas no A M N caixa-alta amplificam seu impacto, e ainda preservando sua leitura (talvez um fruto da variação das espessuras). E ainda temos a sutileza brilhante do grifado no “AM”, que não apenas lhe confere tonicidade na pronúncia visual, mas destaque na mancha. Reivindica-se assim a existência da palavra e também do homem.

Historically the term “boy” was used to refer to black men in countries like the United States and South Africa. Used as an insult, it was intended to diminish their existence and take away their humanity: a boy is less than than a man. In the late 1700s the term was re-appropriated by American abolitionist movements, becoming a question: “Am I Not a Man and a Brother?”. It resurfaced in 1968, amid protests for civil rights in the city of Memphis. After the death of two black sanitation workers – Echol Cole and Robert Walker – more than 1,300 employees went on strike, demanding working conditions, salary increases, and recognition of their humanity. In their protests, they marched, transformed into crowds of plate-men, wearing a poster developed by the workers in partnership with the civil rights movement. But instead of the question, they wore a statement: I AM A MAN written in capital letters, in a condensed and elongated typography, which seemed to alternate between two different weights. Broken into two lines, the sentence gains an impressive visuality and effectiveness. The effect still benefits from the poetic quality of the composition, in which the repetition of the shapes found in the A M N upper case amplifies its impact, and still preserves its reading (perhaps a result of the thickness variation). And we still have the brilliant subtlety of the underlined in “AM”, which not only gives it tonicity in the visual pronunciation, but stands out in the stain. Thus, the existence of the word and of man is claimed.


da série design em contexto
publicado originalmente em 1.6.2020

from the series design in context (portuguese only)
originally published in 6.1.2020