RASTILHO

CAPA DE DISCO, 2020
Certas capas de disco se tornam tamanhos ícones culturais, que quase rivalizam com as músicas que contém. Podem ser a porta de entrada pro design para muitos, e um “job dos sonhos”. Nos exercem um fascínio inegável, e fazem parte da história visual compartilhada da humanidade. Rastilho foi lançado pelo compositor e instrumentista paulistano Kiko Dinucci em Janeiro de 2020. Quando anunciado trazia também a informação do autor de capa, o fotógrafo Pablo Saborido. A natureza em percurso de morte viralizou tamanha capacidade de dizer muito: flores murchando, frutas mofadas, legumes descoloridos, uma cartela de remédios amassada. Parecem representar os sentimentos de inadequação, amargor e insegurança do presente cotidiano. Kiko e Pablo se aproximaram em situações semelhantes: um se recuperando de uma fratura na perna; outro com uma crise de dor de dentes (a cartela seria de analgésico?). Juntos sobrepõe camadas de referência e apropriação. O ponto de partida foi uma série de imagens do fotógrafo retratando os restos do seu café da manhã; daí referenciam outra capa de disco — icônica — a de Power, Corruption and Lies (1983), da banda inglesa New Order. De autoria do também britânico Peter Saville, designer gráfico parceiro do grupo, a imagem é uma apropriação: a pintura de uma cesta de rosas, do francês Henri Fantin-Latour. A migração do consumo de cultura (e imagem, e notícia…) para o ambiente digital agiu como uma faca de dois gumes no mercado musical. Se por um lado ameaça o império nababesco das grandes gravadoras, permitindo aos criadores lançar seu trabalho sem intermediações, por outro lado acirra a disputa pela circulação, fragilizando os mecanismos para seu sustento. Nesse processo o artefato perdeu força e até sentido; há claro a fetichização de formatos nostálgicos (vinil, K7), mas Rastilho, por exemplo, ainda não possui versão física. A contrapartida é estranha: perde-se a materialidade, mas ganha-se em visualidade. O jpeg compartilhado é mais poderoso que a gôndola da loja. A agora imagem de capa — de álbum, single, playlist — não morreu nem foi substituída, mas circula rápido: sua possibilidade de impacto ganhou uma potente sobrevida.

RECORD COVER, 2020
Certain record covers become such cultural icons, which almost rival the songs they contain. They can be the gateway to design for many, and a “dream job”. They exert an undeniable fascination, and are part of the shared visual history of humanity. Rastilho was released by São Paulo composer and instrumentalist Kiko Dinucci in January 2020. When announced, it also included information from the cover author, photographer Pablo Saborido. Nature on the way to death went viral such an ability to say a lot: withered flowers, moldy fruits, discolored vegetables, a crumpled pack of medicines. They seem to represent the feelings of inadequacy, bitterness and insecurity in the present day. Kiko and Pablo approached each other in similar situations: one recovering from a fractured leg; another with a toothache crisis (would it be a painkiller?). Together it overlaps layers of reference and ownership. The starting point was a series of images of the photographer depicting the remains of his breakfast; hence they refer to another album cover – iconic – that of Power, Corruption and Lies (1983), by the English band New Order. Created by the British also Peter Saville, graphic designer partner of the group, the image is an appropriation: the painting of a basket of roses, by the French Henri Fantin-Latour. The migration of consumption of culture (and image, and news…) to the digital environment acted as a double-edged sword in the music market. If, on the one hand, it threatens the nababesque empire of major record companies, allowing creators to launch their work without intermediation, on the other hand it intensifies the dispute for circulation, weakening the mechanisms for their livelihood. In the process, the artifact lost strength and even meaning; there is of course the fetishization of nostalgic formats (vinyl, K7), but Rastilho, for example, does not yet have a physical version. The counterpart is strange: materiality is lost, but visuality is gained. The shared jpeg is more powerful than the store’s gondola. The now cover image – album, single, playlist – has not died or been replaced, but circulates quickly: its possibility of impact has gained a potent survival.


da série design em contexto
Publicado originalmente em 28.2.2020

from the series design in context (portuguese only)
originally published in 2.28.2020