Vez ou outra eu não consigo parar de pensar em Muriel Cooper.

Muriel Cooper nasceu 1925 em Brookline, Massachusetts. É de sua autoria um dos ícones mais familiares para os fãs da literatura visual e científica: o colophon (1) da MIT Press, editora do Massachusetts Institute Of Technology — onde era diretora de design, cargo que ocupou como recomendação de ninguém menos que Paul Rand. O conjunto de linhas grossas verticais simula simultaneamente um conjunto livros vistos à partir de suas lombadas, mas também as letras “m” “i” e “t”. Muriel Cooper era Bacharel em Artes Visuais (1944, 48), Ciência da Educação (1951), estudou design de exposições na Itália (1958). Trabalhando na MIT Press foi responsável pelo projeto gráfico de livros fundamentais tanto por seu conteúdo, quanto por seu design, como o gigantesco tomo Bauhaus (1969) e o livro-paradigma da arquitetura pós moderna Learning From Las Vegas (1972). Muriel Cooper faleceu subitamente em 1994, ano em que completou 20 anos como fundadora, professora e diretora do Visible Language Workshop, dentro do próprio MIT. Um de seus projetos lá foi o Book Without Pages (1978) (literalmente Livro Sem Páginas) um ambiente eletrônico para experimentar a leitura de textos longos e o uso de tipografias em telas de computadores.

Esta é sem dúvida uma biografia plena de feitos extraordinários. Mas eu não quero falar sobre a designer gráfica, espacial ou de livros, nem exatamente sobre a diretora ou professora. Na verdade eu quero falar sobre todas elas, mas quero falar sobretudo de Cooper por meio de suas ideias — que ao meu ver, eram visionárias. Ela imaginou o mundo em que estamos vivendo hoje, anos antes até da internet e do smartphone, e do design feito totalmente em computador. Apresento aqui então 5 frases de Cooper retiradas de palestras, entrevistas, citações em momentos distintos de sua carreira.

The shift from a mechanical to an information society demands new communication processes, new visual and verbal languages, and new relationships of education, practice and production.

“A mudança de uma sociedade mecânica para uma sociedade informacional demanda novos processos comunicativos, novas linguagens visuais e verbais, e novas relações entre educação, prática e produção.” Num momento em que muito da discussão do campo profissional do design gráfico está em torno de ideias como “experiência” e “acessibilidade”, é nítido como as palavras de Cooper parecem projetar uma realidade futura que ela considerava como inevitável — e que é agora os contornos de nosso presente. Muito dessa visão estava em reconhecer que cada vez mais a dinâmica social — e a prática de design — se daria não em torno da elaboração de objetos, mas sim da manipulação e tráfego de informação pura.

Our goal is to make information into some form of communication, which information alone is not. Information by itself does not have the level of “filtering” that design brings to it.

“Nosso objetivo é transformar as informações em alguma forma de comunicação, a qual, por si só, nenhuma informação é. A informação por si só não possui o nível de “filtragem” que o design traz para ela”. Cooper era profundamente consciente da função semiótica do design gráfico, em que a disciplina opera como tradução, interpretação e edição de um conteúdo para uma linguagem visual. Cores, formas, camadas, recortes, tipografias, composições são usadas como recurso de filtrar a informação para que seja comunicada. As escolhas feitas provocam sentido, e por isso toda ação e decisão importa. Há outra fala de Cooper que também fala muito sobre esse potencial: “creio que nunca estou totalmente certa de que o impresso é realmente linear: é mais como um meio simultâneo. Designers sabem muito sobre como controlar percepções, como apresentar informação de alguma maneira que te ajude a encontrar o que você precisa, ou o que você acha que precisa. A informação só é útil quando pode ser entendida.” Da metade dos anos 70 em diante Cooper abandonou para sempre o design de livros na MIT Press, se interessando cada vez mais por computadores e em como trabalhar com informações de maneira eletrônica. Mas sua compreensão da mídia impressa como não-linear já é uma maneira de entender a ação do designer em outra perspectiva. Há um desejo latente, quase em formação. Cooper parece estar falando sobre o impresso, mas na verdade está falando de si, e de como compreendia sua própria atitude frente à prática, independente do suporte.

I was convinced that the line between reproduction tools and design would blur when information became electronic and that the lines between designer and artists, author and designer, professional and amateur would also dissolve”

De certa maneira voltamos aqui ao primeiro ponto: “Eu estava convencida de que a linha entre ferramentas de reprodução e o design iriam se borrar quando a informação se tornasse eletrônica, e que as linhas entre designers e artistas, autores e designers, profissionais e amadores também se dissolveriam.” A abordagem de ensino de Cooper no VLW (2) era de enfatizar um ensino e formação generalista, não especialista. E isso se dava através da relação cotidiana dos alunos com os meios de (re)produção. Certa tarde os alunos derrubaram, literalmente, a parede que separava as salas de design (onde eram feitos os layouts) e reprodução (onde ficavam as impressoras). Para Cooper era evidente que a atividade de design não é apenas intelectual, é também física. Eu costumo dizer que nossa prática às vezes funciona por engenharia reversa: temos que partir de onde queremos chegar e fazer nossos passos de trás para frente. O funcionamento da máquina que imprime, a linguagem de programação que desenvolve, a resolução do device onde a experiência acontece também impactam no percurso e influenciam o resultado do projeto.

Messages and Means was design and communication for print that integrated the reproduction tools as part of the thinking process and reduced the gap between process and product.

Messages and Means ou “Mensagens e Meios/Significados (3)” era o nome do curso que Cooper ministrava no MIT em parceria com seu colega designer na MIT Press, Roy MacNeil, a partir de 1974. Esta aula foi o embrião do Visible Language Workshop, e era definida como “design e comunicação para mídia impressa que integrou as ferramentas de reprodução como parte do processo de pensamento e reduziu a diferença entre processo e produto”. Essa ideia veio da observação frustrante de que muitos alunos ficavam travados quando tinham de iniciar uma nova tarefa. Mas que ao operar diretamente as ferramentas — impressoras, máquinas de fotocópia, materiais de gravuras e tinta — os alunos se sentiam mais livres. Mensagens e Meios não foi então concebida como uma aula expositiva com tarefas, mas sim um ambiente de oficina (workshop) em que a aula e a prática aconteciam simultaneamente. O ensino se dava pela ação, no campo mental e também no físico.

Some people believe that the computer eventually will think for itself. If so, it is crucial that designers and others with humane intentions be involved in the way it develops.

“Algumas pessoas pensam que eventualmente o computador será capaz de pensar por si só. Neste caso, é crucial que designers e outros com intenções humanas estejam envolvidos em como ele se desenvolve.” Já vivemos em um mundo com diferentes iterações de Inteligências Artificiais, das mais simples às mais complexas. Algoritmos nos sugerem playlists, eletrodomésticos, seriados e até parceiros sexuais. Eles também limitam, viciam e distribuem o tipo de informação que recebemos de meios de comunicação ou de nossos amigos e conhecidos. Mais uma vez Muriel Cooper pareceu antecipar não a existência de inteligências artificiais, mas sim os dilemas éticos e cotidianos que elas despertam, e suas perigosas consequências em nossa sociedade e organização política. O escândalo da Cambridge Analítica, os perfis-robô, a censura por algoritmos enviesados nos alertam de como informações, se entendidas apenas como dados, podem mascarar ou desconsiderar completamente as intenções humanas e humanitárias.

We hope to make the tools and to use them.

Uma das grandes frustrações de Muriel Cooper foi não aprender a programar. Mas a medida em que se envolvia mais e mais com computadores, ela parecia compreender como eles mudariam drasticamente a prática de design. Num primeiro momento isso afetou o processo no qual atividades de leiaute, inserção da tipografia, ilustração, copydesk e preparação de originais foram todas transferidas para dentro de um software, num dispositivo operado por apenas um indivíduo. Mas o desejo implícito em “esperamos fazer as ferramentas e usá-las” é a de antever o dia em que designers não apenas operariam, mas também construiriam e dominariam a própria linguagem usada para projetar seus trabalhos, sem intermediações. Cooper já pareceu antever que um dia estaríamos desenvolvendo nós mesmos as interfaces e softwares — websites, aplicativos, e ferramentas open source.


Ref. 1, 2, 3